Falta de médicos, filas e mortes – os desafios de Celina Leão para a saúde pública do DF
Reeleita para o Distrito Federal, Celina Leão tem como desafio reorganizar a saúde pública. A rede enfrenta superlotação, falta de médicos e mortes sob investigação.
Unidades de saúde registram superlotação, com a UPA Ceilândia II atingindo 400% de ocupação. Celina prometeu entregar 5 novas UPAs e reduzir a fila de cirurgias.
Impacto para os pacientes
A carência de profissionais na rede superou 900 médicos. Para atenuar o déficit, o governo convocou 116 profissionais temporários na segunda-feira (26).
Reeleita para governar o Distrito Federal pelos próximos quatro anos, Celina Leão ( PP ) terá como um dos principais desafios a reorganização da saúde pública.
Nos últimos anos, reportagens do g1 e da TV Globo mostraram uma rede marcada por hospitais e UPAs superlotadas, falta de profissionais, filas para cirurgias e episódios que colocaram em xeque a qualidade da assistência prestada à população.
➡️ Esta é a primeira de uma série de reportagens sobre os desafios de Celina Leão para o próximo mandato. Até sábado (7), o g1 vai tratar dos principais temas que o futuro governo terá de enfrentar.
✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 no WhatsApp. O ápice da crise ocorreu no primeiro semestre, após uma sequência de mortes investigadas por suspeita de negligência.
Celina, que já havia assumido o cargo, reconheceu o sucateamento na estrutura e afirmar que era necessário melhorar o atendimento ( veja no vídeo abaixo).
Embora o governo tenha anunciado medidas para ampliar a capacidade da rede — como a convocação de médicos e a abertura de novas vagas —, hospitais e UPAs continuaram registrando problemas de superlotação e dificuldade para absorver a demanda.
Após mortes, governadora Celina Leão reconhece problemas na saúde pública do DF Um dos problemas mais persistentes da rede pública de saúde do DF é a superlotação. Em alguns meses, a ocupação ultrapassou 250%, o equivalente a mais que o dobro do número de pacientes previsto para a estrutura disponível.
A situação também afeta as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs). Em julho deste ano, dados do Ministério Público do Distrito Federal apontaram que 11 das 13 Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs) da capital estavam operando com mais pacientes internados que a capacidade regular de acomodação.
Fachada da UPA de Ceilândia, no Distrito Federal — Foto: Andre Borges/GDF/Divulgação A UPA Ceilândia II registrou taxa de ocupação de 400%. Além disso, atualmente, o Mapa Social da Saúde do Ministério Público mostra mais de 33 mil solicitações de cirurgia eletiva.
Na primeira entrevista à TV Globo após a reeleição, em 27 de outubro, Celina prometeu que vai reduzir o tempo de espera por cirurgias na saúde. “Você não pode deixar uma pessoa esperar, dependendo da gravidade ou do tipo de cirurgia, mais do que dois meses.
O que a gente está trabalhando é tempo de espera.”, afirma. Ela prometeu ainda a entrega de cinco UPAs até o fim do ano e destacou o lançamento do programa *Prontuário do Paciente*, que proporciona o histórico digital unificado do usuário da rede pública.
“É uma coisa, é uma engenharia muito grande, mas eu acho que vai melhorar muito”, afirma. Entrevista ao DF1: Celina Leão (PP) fala sobre mudanças que fará na saúde pública O pior momento recente da saúde pública do DF ocorreu em julho.
Em menos de um mês, seis mortes em UPAs e hospitais públicos levaram familiares a denunciar possível negligência médica.
Foram elas: Vilmar Pereira da Silva, de 49 anos, morreu sem receber atendimento na UPA do Recanto das Emas, em 20 de junho; Luciana Ferreira, de 34 anos, perdeu a primeira filha no parto após idas e vindas do hospital, em 29 de junho; Maria Vitória, de 5 meses, morreu após ser extubada de forma acidental na transferência entre o Hospital de Planaltina e o Hospital da Criança de Brasília, em 6 de julho; Maria Graciana Andrade Alves, de 36 anos, morreu durante o parto no Hospital de Samambaia, em 10 de julho; Rodrigo Resende Prado, de 46 anos, morreu na calçada da porta do Hospital de Base em 12 de julho; Maria Aparecida Galdino dos Santos, de 25 anos, morreu durante o parto no Hospital Regional de Samambaia em 13 de julho.
Na época, o secretário de Saúde do Distrito Federal, Juracy Cavalcante, afirmou que todos os casos estavam sendo investigados, mas defendeu que os episódios eram *fatos isolados* e não representavam a rotina da rede pública.
Ao reconhecer o sucateamento, Celina Leão afirmou, entre outras propostas, que havia previsão para mudar o protocolo do atendimento pré-natal.
“A gente não vai tolerar esse tipo de atendimento nos nossos hospitais. […] Eu tenho certeza que a gente precisa, realmente, melhorar.
Há sim um sucateamento na falta de médicos na rede pública”, disse Celina Leão em julho de 2026. A escassez de profissionais também aparece entre os desafios da próxima gestão.
Em janeiro de 2025, o g1 mostrou que faltavam médicos em todas as especialidades na rede pública de saúde do Distrito Federal, exceto intensivistas.
Levantamento aponta déficit de médicos na rede pública do DF Em julho de 2026, após a repercussão das mortes, Celina anunciou a intenção de convocar 508 profissionais, entre médicos generalistas e especialistas.
A governadora também reconheceu a dificuldade para preencher as vagas. Segundo Celina, em um processo seletivo com 114 vagas, viabilizado com recursos remanejados após o cancelamento das comemorações do aniversário de Brasília, apenas 34 profissionais haviam tomado posse.
O secretário de Saúde do Distrito Federal, Juracy Cavalcante, afirmou que o governo estudava melhorar a remuneração dos médicos da rede pública para atrair profissionais e enfrentar o déficit de servidores. “Nós temos buscado alternativas para a contratação de médicos.
Para vocês terem ideia, no nosso concurso de ginecologia obstetrícia, nós chamamos todo o cadastro de reserva e não tivemos nenhum profissional para assumir.
Nós sabemos que tem uma oportunidade de melhoria na questão da remuneração médica e isso o governo está estudando justamente para a gente ser mais atrativo”, afirmou na época.
A última convocação ocorreu na segunda-feira seguinte à reeleição, em 26 de outubro. A Secretaria de Saúde convocou 116 candidatos aprovados no processo seletivo para médico generalistas, em caráter temporário, por um ano, sem possibilidade de prorrogação.
Publicada em julho deste ano, a seleção ofertou 320 vagas para médicos, além da formação de cadastro reserva. Além de médico generalista, o certame disponibilizou oportunidades para as especialidades de médico de família e comunidade, ginecologista e obstetra e oncologista.
Os salários variam de R$ 10,6 mil a R$ 21,3 mil. Durante entrevista à TV Globo após a reeleição, Celina voltou a defender a ampliação do quadro de profissionais e afirmou que a contratação de especialistas esbarra na dificuldade de atrair médicos para a rede pública.
Segundo ela, o governo avalia mecanismos para tornar os salários mais competitivos em áreas com carência de profissionais, como anestesiologia, ginecologia e oncologia. “Eu preciso melhorar um pouco o salário porque, se não, eu não consigo contratar.
Então, o Ministério Público acompanha isso passo a passo, tanto que eles nos deram uma excepcionalidade para contratar anestesistas por cooperativa. Se não, eu não teria uma anestesista hoje na rede”, explicou.
A falta de profissionais não é o único fator que limita o atendimento. Hospitais e unidades de saúde também precisam de equipamentos operantes, salas adequadas, materiais disponíveis e manutenção regular.
Em outubro, funcionários e ex-funcionários do Hospital de Base, em Brasília, denunciaram as condições precárias no setor de Anatomia Patológica, para onde vão corpos para autópsia, órgãos removidos durante cirurgias e materiais coletados para análise.
Vídeos mostram sujeira, falha na proteção dos trabalhadores e recipientes improvisados para armazenamento de órgãos.
VÍDEOS mostram sujeira e armazenamento impróprio de órgãos no Hospital de Base, no DF O g1 também mostrou denúncias envolvendo ambulâncias contratadas pelo IgesDF.
Trabalhadores relataram veículos com pneus carecas, documentação vencida, macas soltas, falhas de sinalização e problemas mecânicos que poderiam comprometer o transporte de pacientes.
Funcionários denunciam empresa de ambulâncias contratada pelo IGESDF. — Foto: Reprodução O Iges-DF ocupa uma posição central nesse debate porque administra unidades importantes da rede pública, como o Hospital de Base, o Hospital Regional de Santa Maria e todas as UPAs da capital.
Iges-DF é responsável pela administração do Hospital de Base — Foto: TV Globo/Reprodução O modelo de gestão e os resultados do instituto são alvo de questionamentos recorrentes.
Concorrente de Celina à cadeira do Palácio do Buriti, Leandro Grass (PT) criticou a estrutura e prometeu devolver o comando do Iges-DF para a Secretaria de Saúde.
Em dezembro de 2025, o Tribunal de Contas da União apontou falhas graves no uso de recursos federais pelo Iges-DF, incluindo problemas em processos de contratação e indícios de irregularidades em serviços.
TCU aponta falhas graves do IGES no uso de recursos públicos federais Durante e a campanha, Celina disse que pretende cortar gastos da área administrativa do Instituto de Gestão Estratégia do DF (Iges-DF) Ainda no início da campanha, Celina Leão protocolou o plano de governo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com propostas para diferentes áreas.
Para a saúde, a governadora estabeleceu entre os compromissos reduzir o tempo de espera, fortalecer a atenção primária, modernizar os hospitais já existentes, valorizar os profissionais e usar a tecnologia para melhorar o acesso da população aos serviços.
Veja algumas das ações apresentadas para a Saúde: fortalecer e ampliar o programa Opera-DF, que busca reduzir o tempo de espera por cirurgias; fortalecer a Atenção Primária à Saúde, ampliando as Unidades Básicas de Saúde (UBS); assegurar a inauguração do Hospital Ortopédico do Guará, do Hospital de São Sebastião, do novo Hospital de Ceilândia, do Hospital do Recanto das Emas e do Hospital Oncológico, além do Bloco Especializado em Doenças Raras e da modernização da Unidade de Tratamento de Queimados do HRAN.
Implantar o IntegraSaúde, para reunir diferentes tipos de atendimentos; ampliar o acesso à saúde bucal e implementar unidades móveis de atendimento nas escolas públicas; construir 7 novas UPAs, em Águas Claras, Água Quente, Guará 2, Taguatinga, Estrutural, Arapoanga e Ceilândia; implantar o Centro de Diagnóstico e Imagem; reestruturar as carreiras com valorização salarial e reposição de profissionais por meio de concursos públicos; promover o bem-estar dos profissionais, fortalecendo a atenção à saúde mental, física e laboral; expandir as redes de CAPS para todas as RAs.
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Crédito da foto: Joel Rodrigues/ Agência Brasília

