Peixe antes desprezado melhora renda de mulheres da pesca no Rio No centro dessa história.
Mulheres da Associação de Caranguejeiros e Amigos dos Mangues de Magé (ACAMM), na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, transformaram um peixe antes pouco valorizado comercialmente em fonte de renda para famílias da região. A ubarana, conhecida pela grande.
Do espaço instalado na sede da associação saem pratos como estrogonofe, escondidinho, almôndegas, bolinhos, coxinhas, croquetes, quibes e risoles. O preparo utiliza uma técnica baseada em conhecimentos tradicionais transmitidos entre gerações, que permite aproveitar a carne do peixe e agregar valor ao produto.
Os pratos são comercializados em almoços especiais organizados com a venda de convites para moradores, visitantes, turistas, pesquisadores e representantes de empresas. A produção também atende encomendas.
Márcia Regina, que trabalhou como pescadora durante 40 anos e atualmente é aposentada da atividade, explica que os encontros ajudam a movimentar a renda das mulheres envolvidas. Aos 62 anos, ela atua como auxiliar geral da Cozinha das Caranguejeiras e secretária da ACAMM, associação que presidiu por 12 anos.
Cozinha também funciona como espaço de apoio
Segundo Márcia, os pratos feitos com ubarana ajudam 15 famílias. Ela relata ainda que o trabalho coletivo passou a ter uma dimensão social, porque as mulheres encontram na cozinha um espaço para conversar, compartilhar histórias e problemas e apoiar umas às outras.
A história das caranguejeiras na região do Rio Suruí, no recôncavo da Baía de Guanabara, é antiga. As mulheres viviam da cata de caranguejos e já beneficiavam a ubarana para consumo próprio quando o peixe era levado para casa pelos maridos após a pesca.
Com a organização da associação, criada em meio a insatisfações relacionadas à atividade pesqueira e aos catadores, o preparo ganhou uma dimensão comercial. A cozinha foi inaugurada em 2023, ampliando a produção destinada à venda.
Antes disso, a aprovação em um edital do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio) permitiu que a Cozinha conquistasse um endereço físico provisório em 2021, com recursos destinados ao aluguel de um espaço.
Três anos depois, após a associação ser contemplada em outro edital, a estrutura foi transferida para um local maior na sede da ACAMM.
Ubarana tinha baixo valor comercial
A bióloga Verônica Souza, do Projeto Andadas Ecológicas, iniciativa da ONG Guardiões do Mar que apoia a Cozinha e a ACAMM, explica que a ubarana vive em ambientes costeiros e estuarinos e pode ser encontrada em manguezais de toda a Baía de Guanabara.
Por possuir muitas espinhas finas e espalhadas, o peixe apresenta dificuldade para o preparo em filés, o que reduz a procura e contribui para o baixo valor comercial. A técnica desenvolvida pelas mulheres permite aproveitar a carne sem que as espinhas sejam percebidas durante o consumo.
Para Verônica, a experiência mostra como conhecimentos e práticas culinárias de uma comunidade podem modificar a forma como uma espécie é percebida e valorizada.
O presidente da ACAMM, Rafael Santos, conta que, antes de se tornar fonte de renda, a ubarana era utilizada como complemento da segurança alimentar da comunidade e começou a ser servida como petisco durante reuniões da associação.
A sugestão para comercializar o produto surgiu depois que uma pessoa de fora da comunidade experimentou o preparo e apontou a possibilidade de venda.
A partir daí, as próprias mulheres passaram a compartilhar receitas testadas em casa, como estrogonofe e coxinha de ubarana, reunindo conhecimentos que deram novo valor ao pescado.
Mulheres recebem parte das vendas
Atualmente, 15 mulheres atuam diretamente na Cozinha das Caranguejeiras e nas atividades promovidas pela ACAMM em sistema de rodízio. Elas recebem um percentual sobre as vendas dos pratos.
Além das participantes da cozinha, 24 famílias são atendidas pelas ações da associação. O grupo inclui pescadores associados que podem utilizar o espaço, mediante aluguel reduzido, para eventos pessoais, como aniversários e casamentos.
A renda dos pescadores e pescadoras da região também continua sendo fortalecida pela cata de camarão e pela pesca de outras espécies.
Preservação do manguezal integra o trabalho
A associação também desenvolve ações de conscientização e preservação do manguezal. Entre as atividades estão a limpeza e o replantio da vegetação, medidas consideradas importantes para manter a qualidade do estuário onde vivem os peixes.
Desde janeiro, pescadores artesanais e catadores de caranguejos retiraram 12.622 quilos de resíduos do Rio Suruí e de suas margens por meio da Operação LimpaOca, também desenvolvida pela ONG Guardiões do Mar.
Outra frente de atuação das Caranguejeiras é o incentivo aos roteiros de Turismo de Base Comunitária na Baía de Guanabara. Construções centenárias e áreas naturais integram os atrativos de Magé, com atividades de observação de fauna e flora e embarques pelo Rio Suruí.
Crédito da foto: Rodrigo Campanário/Divulgação Turismo de Base Comunitária Outra atividade das Caranguejeiras é incentivar os roteiros de

