domingo, agosto 23, 2026
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Evasão silenciosa – como a falta de acolhimento afasta estudantes LGBTQIA+ das escolas no DF

A falta de acolhimento, episódios de violência e o preconceito ainda afastam estudantes LGBTQIA+ das escolas no Distrito Federal. Dados locais e nacionais mostram que jovens trans enfrentam índices mais altos de insegurança e de intenção de abandonar os.

A Pesquisa Nacional sobre o Bullying no Ambiente Educacional Brasileiro 2024, da Aliança Nacional LGBTI+, aponta que cerca de 90% dos estudantes LGBTQIA+ do país são vítimas de agressão verbal. O levantamento mostra ainda que 60% dos jovens trans já consideraram abandonar a escola, ante 42% dos estudantes cisgênero.

O cenário inspirou o professor de Brasília Marcus Maciel a escrever o livro *Pajubá me acuendou da escola*, lançado neste domingo (23), em Brasília. A obra reúne cinco histórias de pessoas trans que conseguiram superar as barreiras relacionadas à permanência na escola.

No Pajubá, linguagem utilizada pela comunidade LGBTQIA+, o termo *acuendar* é usado para representar essa expulsão silenciosa do ambiente escolar.

Segundo Maciel, a ideia do livro surgiu durante uma pesquisa, após ouvir o relato de uma pessoa que afirmou que sua linguagem, forma de falar e trejeitos haviam fechado as portas da escola.

“A linguagem tirou e tira muita gente da escola por preconceito”, afirmou o professor.

Histórias de superação

Entre as histórias apresentadas no livro está a de Jaqueline Gomes de Jesus, brasiliense, psicóloga, pesquisadora e professora universitária. Ela foi a primeira mulher trans a receber o Diploma Bertha Lutz, reconhecimento destinado a contribuições relevantes para a defesa dos direitos da mulher e questões de gênero.

Jaqueline afirma que um dos principais desafios enfrentados durante sua formação foi a aceitação. Para ela, escolas e universidades precisam ampliar políticas e formas de acolhimento às pessoas trans.

“O grande desafio que eu diria para pessoas trans na academia, na universidade, não é necessariamente ser aluna. O problema é ser reconhecida como um igual. É preciso uma educação e uma formação para além da obrigatoriedade da pessoa estar na escola”, afirmou.

Ela também destaca a importância de obras que apresentem referências positivas para pessoas mais jovens e mostrem que é possível superar dificuldades, sem que trajetórias de sucesso sejam tratadas como exceções.

Escolaridade e violência no Distrito Federal

No Distrito Federal, 40,9% da população LGBTQIA+ atinge o ensino superior, segundo a pesquisa Retratos 2024, do Instituto de Pesquisa e Estatística do DF (IPEDF). Entre pessoas transgênero, o índice cai para 26,1%, abaixo dos 33,8% registrados entre a população cisgênero.

Na rede pública, 50% dos estudantes foram vítimas de violência sistemática, caracterizada por episódios recorrentes. Desse total, 17,1% dos casos tiveram como motivação a orientação sexual.

O relatório Bullying no Ambiente Escolar do Distrito Federal de 2025 também apontou que menos de 20% dos professores se sentem muito capazes de abordar a LGBTI+fobia em sala de aula.

A Secretaria de Educação informou que realiza ações formativas sobre diversidade sexual, prevenção da homotransfobia e acolhimento de estudantes LGBTQIA+, com base no Currículo em Movimento e em outras normas educacionais.

A pasta também promove encontros sobre uso do nome social, retificação de documentos e uso de banheiros por estudantes trans.

Jovens trans relatam maior insegurança

Em âmbito nacional, a Pesquisa Nacional sobre o Bullying no Ambiente Educacional Brasileiro 2024 aponta que 57% dos alunos trans já deixaram de ir à escola por se sentirem inseguros.

O levantamento também mostra que 60% dos jovens trans já consideraram abandonar a educação básica. Entre eles, 30% disseram ter considerado a evasão de forma *muito séria*, quase três vezes o percentual registrado entre jovens cisgênero, de 11%.

Projeto em Taguatinga busca ampliar acolhimento

No Centro de Ensino Médio Escola Industrial de Taguatinga (Cemeit), o psicólogo Vinícius Mota criou um projeto voltado ao acolhimento e à saúde mental de estudantes LGBTQIA+.

Segundo Mota, estudantes trans podem ser afastados da escola quando não encontram respeito ao nome social, segurança ou condições para expressar a própria identidade.

“O aluno LGBT, em especial o aluno trans, ele não evade da escola, ele é evadido. Se eu estou em um ambiente aonde não respeita meu nome social, aonde não me oferece segurança para eu vir para a escola, um uniforme adequado, que eu possa me expressar conforme eu me sinto, eu não vou ficar nesse espaço”, afirmou.

O projeto *Observatório de Convivência Estudantil* foi premiado nacionalmente por criar um espaço de acolhimento entre jovens trans dentro da escola. Vinícius Mota também integra a ONG Minha Criança Trans, que oferece apoio psicológico e jurídico a pais e jovens trans.

Para o psicólogo, porém, o acolhimento de estudantes e educadores precisa ser acompanhado da produção de dados que permitam orientar políticas públicas.

“Eu não posso pensar em políticas públicas de inserção, de acolhimento para esses estudantes se eu não tenho isso quantizado. Se eu não tenho isso, eu não tenho onde recorrer. Se eu não sei nem onde esse pessoal está, como que eu vou quantificar? Como que eu vou criar políticas?

Como que eu vou criar acolhimento?”, afirmou.

Crédito da foto: Divulgação