terça-feira, junho 25, 2024
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Preparados para retomar as atividades presenciais?

Foto: Freepik

Especialistas apontam os principais aspectos que devem ser levados em consideração nesse processo de retomada, bem como os impactos na saúde mental

A chegada das vacinas contra a covid-19 trouxe muito mais que esperança para a população, trouxe a possibilidade de começar um novo tempo, com vários desafios e incertezas, mas principalmente a oportunidade de recomeçar uma sociedade.

Por mais de um ano, comunidades e setores inteiros se viram encarcerados por conta das medidas de proteção sanitárias, a principal: distanciamento social. Contato só por meio de telefones e telas de computador, diálogos reduzidos pela fadiga tecnológica, interações físicas com outros bastante reduzidas.

Agora o desafio é retomar 100% as atividades presenciais. Com a vacinação, empresas e serviços públicos e privados têm trazido seus colaboradores para o ambiente de trabalho, bem como as escolas os alunos e professores. Estamos preparados e seguros para essa nova realidade? Especialistas de diversas áreas entrevistados pelo DF Notícias respondem.

Para o infectologista Leandro Correa Machado (CRM-DF 18903) estamos aptos para o retorno, desde que estejamos atentos. “Podemos sim voltar às atividades presenciais, mas é importante a gente entender que não estamos liberados da necessidade de usar máscaras em lugares fechados e manter as medidas de prevenção. Isso tudo é importante ainda: usar álcool em gel, manter o distanciamento social. Quanto a vacina, ela não protege 100% conta a infecção. É tanto que alguns países voltaram com algumas medidas porque liberando 100%, sem nenhum controle, o número de casos aumentou. Por isso é importante aprendermos com os exemplos tanto de Israel, quanto da Inglaterra. Pode-se liberar sim, desde que usemos máscaras, usemos álcool em gel, mantenhamos um distanciamento e continuemos a vacinação. É importante completar a segunda dose para toda a população e para aqueles indicados, fazer o reforço”, explica o médico.

Já a professora universitária e doutora Vivian Taís Fernandes Cipriano aponta que “a retomada das atividades é algo necessário e natural que deve acontecer. Sabemos que nossa economia, nosso ensino e outros setores estão extremamente prejudicados em decorrência da pandemia. Porém, não vejo que estejamos 100% preparados para esta retomada totalmente segura e acredito que o foco atual ainda deveria ser a vacinação e trabalho remoto. A exemplo do que está acontecendo com o restante do mundo, já que países que ‘afrouxaram’ as regras, como EUA, Reino Unido e Israel tiveram que voltar atrás devido ao avanço da pandemia, surgindo inclusive a nova variante, ainda mais contagiosa, na Rússia”.

A doutora ressalta que o comportamento da população também interfere no processo de retomada de maneira segura. “Acredito que a população, estando imunizada torna-se sim mais segura, mas muitos não sabem ou não querem respeitar as regras corretamente, colocando em risco a vida do próximo”.

E complementa: “Se todas as normas fossem realmente respeitadas (distanciamento, utilização de máscaras adequadas como descartáveis ou N95, higienização com álcool gel) 100% do tempo; aí sim teríamos um retorno seguro. Além disso, pacientes com comorbidades ainda precisam ser poupados”. 

Saúde mental

Esse retorno totalmente presencial tem afetado diretamente a saúde mental de trabalhadores e estudantes que ficaram por muito tempo com as relações sociais bem restritas e agora precisam enfrentar o retorno da convivência com outros integrantes da sociedade.

A psicóloga Simone Andrade (CRP-01/24582) aponta algumas dificuldades enfrentadas para quem está voltando às atividades presenciais. “Os pacientes chegam cheios de angústias. Relatam dificuldades nas relações interpessoais, já que trabalharam durante muito tempo de maneira remota, e por isso os relacionamentos giravam basicamente em torno da família. Há também muitas preocupações quanto as medidas de segurança no local de trabalho. Como vai ser este local, como vai ser conversar respeitando o distanciamento, e na hora do almoço retirar a máscara, será que é seguro?”.

A também psicóloga, Rita Rocha (CRP 01/19406) conta que com o retorno das atividades presenciais ficaram ainda mais visíveis os impactos da pandemia na saúde mental da população. “Com o retorno das atividades presenciais, ficou ainda mais evidente o aumento no número de pessoas que apresentaram algum sintoma de depressão e ansiedade. Temos recebido na clínica muitas pessoas que ao longo da vida nunca apresentaram qualquer alteração psicológica, porque tinham alto controle. Mas, por conta do isolamento passaram a apresentar sinais de depressão e ansiedade. No mês passado, por exemplo, tivemos a campanha Setembro Amarelo (prevenção ao suicídio). Durante o período, a procura foi tão alta que chegamos ao ponto de não conseguirmos suprir a demanda”, relata.

“Quanto o retorno dos estudantes o que vemos é uma grande dificuldade de adaptação, principalmente dos adolescentes. Eles não se adaptaram às aulas remotas, tampouco às aulas híbridas. E agora eles não estão conseguindo se readaptar ao modelo presencial. Eles perderam muito a motivação. Alguns já não tinham, e o pouco que tinham foi por água a baixo. Um dos maiores problemas é com a atenção, manter essa atenção. Além da fadiga causada pelas telas dos celulares e computadores nesse público”, diz a especialista.

Pontos positivos

De acordo com Rita, “um ponto positivo para essa retomada é a volta das relações. Sabemos que o homem não foi criado para viver fechado, ele foi criado para viver em sociedade, em bando. Por isso a volta das atividades presenciais traz benefícios no sentido de sociabilidade – que é algo que precisamos-, de movimento corporal, de movimento cerebral porque a gente estava usando somente a tecnologia para fazer esse tipo de movimento de comunicação, embora saibamos que a tecnologia veio para ficar. Mas agora temos a possibilidade de estarmos juntos”, celebra.

A especialista Simone Alves ressalta que “o retorno das atividades presenciais traz consigo a oportunidade de maior socialização, oportunidade de aprender com o outro e de ensinar, conviver com pessoas diferentes de você. Conversar com colegas – mesmo que seja mantendo a distância – traz benefícios à saúde mental e aperfeiçoamento das habilidades sociais”.

“Sem falar que o trabalho por si é de extrema importância para o indivíduo. Interessar-se e ocupar-se com uma atividade oferece ao indivíduo uma sensação de valor, de satisfação, além de aprendizados e inúmeras habilidades para lidar com a vida, lidar com o próximo e aprender a resolver problemas. O trabalho também é fator de reconhecimento e status. Ele é responsável por sua fonte de renda, que é necessária para realização de seus sonhos e metas”. Conclui a psicóloga.