Automedicação pode causar danos irreversíveis

Especialistas apontam os principais problemas no uso irracional de medicamentos e fazem alerta sobre casos de óbitos relacionados ao consumo de medicamentos de forma desordenada

O uso irracional de medicamentos no Brasil tem deixado muitos membros da comunidade médica em alerta. De acordo com artigos e estudos divulgados por institutos de pesquisa, casos de automedicação têm crescido durante a pandemia. O DF Notícias conversou com três especialistas para saber quais os perigos essa prática oferece e os principais danos associados à automedicação.
De acordo com estudo divulgado no Caderno de Saúde Pública da Fiocruz (Fundação Osvaldo Cruz) – e assinado por José Romério Rabelo Melo, Elisabeth Carmen Duarte, Marcelo Vogler de Moraes, Karen Fleck, Paulo Sérgio Dourado Arrais, “a automedicação é um fenômeno bastante discutido na cultura médico-farmacêutica e não é uma prática restrita ao Brasil. A automedicação pode ser vista como um elemento do autocuidado, mas quando inadequada, tais como o uso abusivo de medicamentos (polimedicação) e o uso de medicamentos off label, pode ter como consequências o uso irracional de medicamentos, efeitos indesejáveis, enfermidades iatrogênicas e mascaramento de doenças evolutivas, além da ampliação de custos para o paciente e para o sistema de saúde”, apontam.
“Durante a pandemia de covid-19, o padrão de consumo de medicamentos no Brasil chamou a atenção. Estava no centro dessa questão o denominado ‘tratamento precoce’ ou ‘kit-covid’: uma combinação de medicamentos sem evidências científicas conclusivas para o uso com essa finalidade, que inclui a hidroxicloroquina ou cloroquina, associada à azitromicina, à ivermectina e à nitazoxanida, além dos suplementos de zinco e das vitaminas C e D. A prescrição e o uso desses medicamentos off label para tratar ou prevenir a covid-19 recebeu contornos de grande credibilidade, quando o ‘tratamento precoce’ e o ‘kit-covid’ foram divulgados e o seu uso incentivado amplamente nas mídias sociais (WhatsApp, Facebook e Instagram) por autoridades públicas”, aponta parte do documento.
Dra. Vivian Cipriano, Farmacêutica, Mestre em bioquímica e Doutora em genética pela USP falou sobre o assunto e disse que “o uso descontrolado de medicamentos sem acompanhamento médico ou sem orientação do farmacêutico trazem riscos à saúde como hipertensão, reações mais simples – desde uma reação alérgica – até reações mais graves como choque anafilático, que pode levar o indivíduo a óbito. Além disso, o paciente pode desenvolver distúrbios, resistência a uso de medicamentos e patologias que ele não tinha anteriormente”.
“Em caso de intoxicação, deve-se procurar um hospital o mais rápido possível para que seja revertida a situação. Podem ser utilizados medicamentos que chamamos de antagonistas, que vão cortar o efeito do causador da reação danosa no paciente. No caso de urgência, o Corpo de Bombeiros também pode ser acionado”, disse a especialista.
“Infelizmente no período de pandemia é possível atribuir parte dessa corrida para a automedicação ao mal uso da mídia que divulga informações incoerentes, principalmente relacionadas aos medicamentos de tratamento precoce, já conhecidos pela população, mas que não têm comprovações cientificas quanto sua eficiência contra covid-19. Temos alguns relatos de que isso possa acontecer in vitro, mas não em vivo. Então esse uso descontrolado, como o da Ivermectina, que tivemos aumento de 1.200% no consumo, acaba levando a problemas de intoxicação renal e hepática. Já tivemos casos de vários pacientes que vieram a óbito devido ao uso excessivo dessa medicação, principalmente neste momento de pandemia. A orientação é que o paciente realmente faça uso de medicamento somente em casos de necessidade, sob prescrição. Qualquer medicamento deve ter o uso racional e ser cientificamente comprovado”, ressalta a doutora.

Perigo para crianças

A automedicação e uso irracional de medicamentos não é uma exclusividade dos adultos. A médica pediatra, Dra Louise Assis Daameche, CRM-DF 20839, disse ao DFN que “durante a pandemia, identificamos a queda importante dos atendimentos ambulatoriais pediátricos, principalmente as consultas de puericultura. As repercussões estão sendo vistas agora e também serão vistas a longo prazo. Identificamos vários erros nutricionais, uso inadequado de medicações, níveis elevados de ansiedade e estresse, sobrepeso, obesidade, luto familiar, atraso escolar e muitos outros comprometimentos. O que mais chama a atenção é o uso inadvertido de medicação sem prescrição médica, sendo mais frequente na faixa pediátrica: vitamina D, zinco e vitamina C. Superdosagem destes medicamentos pode levar a intoxicação e prejuízo a saúde das crianças”.
O DF Notícias entrevistou ainda o médico Jonas Brant, epidemiologista, professor e pesquisador da Universidade de Brasília e Coordenador da Sala de Situação da UnB. Ele aponta que “é preciso entender que o uso descontrolado de medicamentos traz uma série de riscos. Eles também são chamados de drogas, porque são substâncias que vão exercer uma ação no organismo que pode ser benéfica ou maléfica. Por isso temos os farmacêuticos e médicos estudando as medicações e suas reações no organismo para que sejam adotadas e prescritas garantindo a dosagem adequada para o paciente. Por isso é necessário que se evite a automedicação, que se busque sempre a orientação de um profissional de saúde”.
“Podemos ter uma série de problemas causados pela automedicação. No caso da Cloroquina, ela pode causa arritmia cardíaca, já outras medicações podem causar hepatite. Muitas pessoas acabaram agravando seus quadros e até mesmo morrendo, não pela covid, mas pelo uso inadequado dessas medicações. Alguns agravos gerados pelos remédios podem não ser reversivos e levar a óbito. Então, não deve ser adotada a automedicação”, conclui o médico.

Aumento de mortes

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) calcula que 18% das mortes por envenenamento no Brasil podem ser atribuídas à automedicação, e 23% dos casos de intoxicação infantil estão ligados a ingestão acidental de medicamentos armazenados em casa de forma incorreta. Os analgésicos, antitérmicos e anti-inflamatórios estão entre os que mais intoxicam.