terça-feira, abril 23, 2024
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Cai número de famílias que apoiam escolas fechadas

Foto: Dênio Simões – Agência Brasília

No início da pandemia muitas famílias acreditavam que era sim muito importante manter as escolas fechadas para evitar a contaminação pelo vírus, mas o entendimento tem mudado

Divulgada no fim do mês passado, a terceira etapa da pesquisa Impactos Primários e Secundários da Covid-19 em Crianças e Adolescentes, realizada pelo Ipec – Inteligência em Pesquisa e Consultoria (Ipec) para o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) aponta que percentual de famílias que consideram muito importante manter as escolas fechadas por conta do coronavírus caiu.

No início da pandemia, em julho de 2020, 82% dos brasileiros afirmavam que era muito importante manter as escolas fechadas. Em novembro, essa porcentagem caiu para 71%. Agora, em maio de 2021, são 59%.

Diante dos dados nacionais apresentados, o DF Notícias entrevistou Ana Paula Carreira, vice-presidente da Associação de Pais e Alunos das Instituições de Ensino do Distrito (ASPA-DF), para entender quais os motivos que podem ter levado a essa mudança de comportamento.

Anapaula conta que “a ASPA-DF, desde julho de 2020, defende o direito de escolha para todos os estudantes e famílias no Distrito Federal. Buscamos garantir que cada família possa decidir qual é o melhor método para seu filhos, se o ensino remoto, híbrido ou 100% presencial, tanto para alunos da rede pública e da rede particular. Respeitando os protocolos de segurança, cumprindo o distanciamento de 1m entre carteiras, com retorno gradual, e demais regras tanto para os alunos como para os colaboradores envolvidos no cenário educacional, defendemos que todas as escolas reabram”.

A associação entende que “a educação é um serviço essencial e assim como as escolas da rede particular retornaram em setembro de 2020 as escolas da rede pública deveriam tê-lo feito também. Os alunos da rede pública estão sem aulas presenciais há uma ano e 4 meses com sistema on-line funcionando de forma precária, além de a maioria das famílias não terem equipamentos tecnológicos condizentes para seus filhos acompanharem as aulas. Entendemos que a entrega de material impresso demonstra descaso com os mais vulneráveis e não cumpre a função educacional”.

Perguntada sobre as consequências do fechamento prolongado das escolas, Anapaula conta que a situação gera diversos prejuízos sociais como abandono e evasão escolar, problemas na saúde metal de crianças e adolescentes, dificuldades no acesso ao ensino remoto, trabalho infantil, abuso sexual, gravidez na adolescência, violência doméstica, entre outros.

A representante da ASPA-DF, conta ainda que “em levantamento internacional de retomada das aulas presenciais tabulado pela consultoria Vozes da Educação, e que teve apoio da Fundação Lemann e Imaginable Futures, indica que, na maioria dos 21 países pesquisados, o retorno às aulas presenciais não impactou a tendência da curva de contaminação pelo novo coronavírus. No final do mencionado estudo, foi concluído que: (I) a interrupção das aulas prejudica o aprendizado; (II) os alunos dos primeiros anos de educação básica são os mais prejudicados; e (III) alunos com menos condições socioeconômicas são os que mais sofrem com a ausência de aulas”.

E segue: “Não são poucos os relatos de pais de crianças especiais informando que o fechamento das escolas causou regressões no desenvolvimento de seus filhos, crianças autistas, outras com síndrome de down, além de aumento de peso para muitas crianças. Os impactos negativos são inúmeros e por isso a Associação de Pediatras do Distrito Federal alertou para o retorno das aulas presenciais”.

Anapaula ressalta que “entendemos que o retorno as aulas presenciais se faz imperioso nesse momento, o ensino precisa ser priorizado por ser direito fundamental do ser humano”.

Consequências

De acordo com a representante da Associação: “Em quase 500 dias de escolas fechadas, observamos diversos efeitos deletérios para as crianças e adolescentes. Houve aumento da incidência de obesidade, intolerância à glicose e puberdade precoce. Observou-se também redução da capacidade pulmonar e resistência física das crianças, possivelmente efeito do sedentarismo”.

Em relação à saúde mental das crianças e adolescentes, os efeitos são trágicos, afirma Anapaula. “Há diversos relatos na literatura de aumento de tentativas de suicídio e suicídio, principalmente em meninas. Segundo estudo recente feito no Reino Unido, houve aumento de 56% dos casos de suicídio em crianças e a principal forma foi enforcamento. Houve também aumento importante nos casos de depressão, ansiedade, transtorno bipolar, bulimia, anorexia e transtorno obsessivo compulsivo. Estamos vivendo uma epidemia de doenças mentais em crianças e adolescentes. E o descaso com estes dados comprova a negligência com que os transtornos mentais em crianças são tratados por governantes e pela sociedade em geral”.

Ela alerta também para o retrocesso nas políticas de inclusão para crianças com deficiência. “O ensino remoto é desastroso principalmente para as crianças com deficiência. Para as crianças autistas, o convívio social faz parte do tratamento médico prescrito. Crianças surdas, cegas ou surdo-cegas perderam anos de progresso nestes 500 dias de escolas fechadas e muitas terão sequelas irreversíveis. Como ensinar o alfabeto Braille para uma criança cega através de uma tela de computador?”, questiona a vice-presidente da ASPA-DF.