quinta-feira, abril 18, 2024
Saúde

Pandemia e os impactos nas crianças

foto: jcomp / freepik

Fechamento das escolas, necessário para conter a transmissão do coronavírus, trouxe impactos negativos para a saúde mental na infância. Profissionais ouvidos pelo DFN apontam o que deve ser feito para amenizar questões enfrentadas pelas crianças

Por causa da pandemia da covid-19, escolas do país inteiro ficaram fechadas por quase todo o ano letivo de 2020, como medida para evitar a disseminação da doença. Ainda em 2021, as escolas públicas do Distrito Federal seguem fechadas, com ensino remoto.
Enquanto o governo tenta reduzir os casos de infecção para ter um ambiente seguro para retorno presencial, especialistas apontam consequências sérias e até mesmo graves para a saúde mental e física das crianças. O DF Notícias ouviu especialistas para saber quais problemas surgiram e o que os pais ou responsáveis podem fazer para amenizar essas questões.
Segundo profissionais de educação e de saúde ouvidos pelo DFN, há alunos com: ansiedade e depressão; alteração no sono e no apetite; maior irritabilidade e agitação; dores psicossomáticas; regressão no comportamento e até dificuldade na socialização.
O médico psiquiatra Alisson Marques (CRM-DF 19581) disse que, “as crianças, não diferente dos adultos, também foram bastante afetadas pela pandemia, mesmo aquelas que não têm compreensão clara do momento. Elas percebem na convivência familiar as preocupações, as angústias e os receios vividos por todos. Elas deixaram de ir presencialmente à escola e passaram a se adaptar a modelos remotos, sem contato com amigos, sem atividade de educação física e arte, sem entretenimento na escola e passaram a ficar isoladas, sem brincar na rua ou no condomínio. Perderam círculos de contato. As crianças sofrem com todo esse processo”.
“Existe estudo brasileiro, da Universidade de São Paulo, que investigou sintomas de ansiedade e depressão em 7.000 crianças. Dessas, foi identificado que 27% apresentavam sintomas depressivos e de ansiedade”, aponta o especialista.
O médico ressalta que, “os pais podem ajudar se desconectando da temática da covid, explicar quando perguntados, e não sem que a criança tenha demandado. Desenvolver atividade dentro de casa, com momentos de lazer, com distanciamento e medidas de segurança. Fazer leituras e assistir filmes. No mesmo momento os pais não precisam se cobrar, precisam ser verdadeiros e mostrar empatia e ter um diálogo claro”, diz.
A psicóloga Rita Rocha (CRP 01/19406) conta que “aumentou a procura por atendimento psicológico durante a pandemia. Os pais estão pedindo ajuda para lidar com essa situação, solicitando esclarecimentos, tanto por telefone, quanto pelas redes sociais. E o que percebemos é que aumentou também o uso da tecnologia, para ter distração, ela ajuda. Mas, usada de modo exagerado ela diminui a tolerância das crianças. No momento em que ela tem contato com isso, o cérebro fica condicionado a sempre ter respostas rápidas, sabemos que no convívio familiar isso não acontece da mesma forma. Precisamos de tempo para assimilar. Então tudo isso vem gerando ansiedade. Os pais precisam tirar um tempo para brincar com jogos manuais, a exemplo do tabuleiro, com pintura, cosquinhas e é preciso tirar um tempo de qualidade durante o dia para isso”, indica.
Quando procurar ajuda?
Segundo o Dr. Alisson, em uma situação tão prolongada de isolamento, é inevitável que haja consequências na saúde emocional das crianças. O recomendável é que os pais fiquem atentos aos seguintes sinais: ansiedade de separação (a criança que era independente passa a ficar com medo de perder os pais de vista, mesmo dentro de casa, por exemplo); alterações no apetite e ganhos/perdas de peso; insônia e dificuldade para dormir; pesadelos com frequência maior; irritabilidade; mudança no padrão das brincadeiras e dos desenhos (mais temáticas de morte, por exemplo, ou de posturas agressivas). Estes são sinais que os pais precisam verificar para entender como anda a saúde mental dos seus filhos. É importante procurar ajuda profissional, psiquiatras, pediatras, psicólogos”, aponta.
Prejuízos educacionais
“Com a pandemia muitas famílias optaram por não encaminhar as crianças para a escola, embora a instituição sempre procure ofertar à criança e à família um apoio para que não ocorra a evasão. Um dos maiores prejuízos é que a criança não vai mais conseguir recuperar esse tempo que está longe da escola. A escola é um ambiente, além de formativo, acolhedor, e na rede pública o local que a criança se alimenta. Quando acontece essa quebra, cada criança na sua casa, muitas coisas podem acontecer, como abuso, fome, interrupção da aprendizagem, e um abalo emocional gigantesco”, aponta a psicopedagoga, Itaiza Campos.
Já a professora Gérlia Soares, que atua com duas turmas de 2° ano do ensino fundamental, sendo uma da rede pública e outra da rede particular de ensino, acredita que “é possível ‘reparar danos a longo prazo’, isso pode ocorrer com um reforço no contraturno até o 4° ano. As crianças que recebi do 1° ano não conseguem formar frases, algumas não reconhecem as letras do alfabeto, não leem. Este é um problema grave que precisa de um acompanhamento até o 4° ano mais ou menos. Por isso, defendo aulas presenciais, educação se faz com pessoas, um olhando para o outro de forma presencial, como professora no ensino remoto me sinto brincando de ensinar: eu finjo que ensino, e as crianças fingem que aprendem”.
O governo de Brasília não apontou previsão de retorno das aulas presenciais na escola pública. Especialistas reforçam que a retomada das aulas deve acontecer apenas quando houver condições seguras e adequadas para a prevenção da covid-19 e apontam que mesmo com todas essas consequências emocionais, o direito à vida está acima disso.

Recomendação

No final de janeiro, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) divulgou um documento em que defende o retorno às aulas presenciais, citando o adoecimento de alunos e professores. Reconhece que não foram colocadas em prática as regras para garantir a segurança sanitária, principalmente na rede pública, mas diz que as crianças “representam menos de 1% da mortalidade e respondem por 2-3% do total das internações”.
A entidade pede “a responsabilização das autoridades públicas, nas três esferas de governo (municipal, estadual e federal), para solucionar o problema da volta às aulas, o que implicaria a tomada de uma série de decisões”.