quinta-feira, abril 18, 2024
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Arborização urbana precisa de planejamento

Foto: Joel Rodrigues/Agência Brasília

Especialista explica que escolha de espécies deve ir além da beleza e precisa de critérios para que haja harmonia entre o verde, equipamentos públicos e comunidade

Brasília chama atenção de visitantes e de pessoas que escolhem a cidade para morar por vários motivos e um deles é a quantidade de árvores que compõem os espaços urbanos da capital do país.

De acordo com o governo, mais de 5 milhões de árvores estão espalhadas pela cidade e fazem diferença no dia a dia de quem mora por aqui. “Estou em Brasília há mais de 6 anos e fiquei fascinada com a quantidade de árvores que temos por aqui. Para nós que trabalhamos o dia todo em locais fechados, ver o verde e sentir o frescor trazido pelas sombras das árvores é um alento”, conta a professora universitária Vivian Cipriano.

Mas para manter todo esse verde à disposição da sociedade e com segurança é preciso entender que não basta plantar uma árvore de qualquer espécie em qualquer lugar. A especialista Amanda Coelho, bióloga, mestre em Urbanismo Sustentável e Ordenamento do Território explica que a arborização urbana precisa seguir alguns critérios.

“A arborização urbana não pode ser feita de qualquer maneira, seguindo o que as pessoas julgam ser mais bonito, ou as árvores mais bonitas. Há uma série de regras que devem ser seguidas para se fazer isso de maneira segura e que não cause prejuízos, ou que se causar, seja um prejuízo menor. Para isso é preciso que seja pensada a finalidade de se plantar uma árvore, onde ela vai ser plantada, qual o planejamento para aquele local em um futuro próximo e o que se espera com aquela planta ali presente”, esclarece a bióloga.

No caso dos pinheiros do Parque da Cidade, que estão em evidência por conta do acidente com frequentadores, Amanda ressalta que “pinheiros, bem como eucaliptos não são árvores do cerrado. Essas árvores foram trazidas na época da construção da cidade porque era preciso madeira e essas espécies são conhecidas por terem um crescimento rápido que era o necessário na época, tanto para a construção da cidade quanto para o dia a dia dos moradores”.

“Com a evolução da tecnologia e o desenvolvimento de novas formas de obtenção de energia e de calor, os pinheiros foram assumindo um papel de ornamentação da cidade. E há uma grande quantidade dessas árvores no Parque da Cidade, que também faz parte do planejamento de arborização urbana e precisa de monitoramento constante”, conta a especialista.

Nesta semana, o governo do Distrito Federal anunciou algumas ações no parque para garantir a segurança dos frequentadores. Na área dos pinheiros foram suprimidas 29 árvores que apresentavam risco eminente de causar algum acidente. Além disso foram instaladas 15 novas placas de advertência para que os visitantes fiquem atentos a possíveis quedas de galhos ou árvores na região, principalmente em caso de chuva e ventania, ou ainda devido ao uso de redes de balanço nos troncos.

A bióloga avalia a medida como positiva e alerta a comunidade que a comoção pela remoção de árvores não deve sobressair à segurança dos frequentadores do parque. “É preciso que as pessoas entendam que suprimir árvores que apresentam problemas se faz necessário porque elas colocam em risco a vida de quem frequenta aquele espaço. Por mais que a gente julgue aquela planta bonita, naquele momento e daquela forma ela apresenta riscos aos frequentadores”, aponta Amanda.

Além da questão dos pinheiros no Parque da Cidade, a bióloga aponta que outras regiões do Distrito Federal apresentam questões sérias relativas à arborização urbana. “Eu acredito que anos atrás, as pessoas que pensaram a arborização do DF não acreditavam que essas árvores fossem ficar por tantos anos. Por isso temos problemas nas Asas Sul e Norte. São árvores antigas, lindas e altas, mas que na época de chuvas elas representam preocupação tanto pelos órgãos competentes quanto pela própria comunidade. Dessa maneira, elas precisam sim ser monitoradas. Muitas delas estão com doenças que precisam ser tratadas ou até mesmo suprimidas. É natural que haja uma comoção por serem árvores de 50, 60 anos, mas isso precisa ser repensado”, alerta a especialista.

Manutenção

Uma cidade arborizada precisa manter a relação de equipamentos públicos, da comunidade e do verde em harmonia, para isso órgãos responsáveis e população devem estar atentos e em contato para garantir a segurança e o funcionamento de todo o sistema.

Para evitar acidentes e preservar as árvores ações de podas são realizadas constantemente nas cidades do Distrito Federal. E quanto a esse tema a bióloga Amanda explica que é preciso cuidado ao escolher as espécies de arvores a serem plantadas bem como a poda das plantas.

“O que vemos aqui no Distrito Federal são árvores de grande porte, com grandes galhos que acabam atingindo a rede elétrica, causando prejuízos tanto para a população – que pode ficar sem energia por conta de um fio rompido por um desses galhos – quanto a distribuidora que terá de arcar com a troca da fiação. Além disso, muitas vezes essa poda é feita em formato de ‘u’, deixando a árvore horrível e podendo colocar em risco a integridade da planta por estar sobrecarregando apenas um lado”, explica a especialista.

“Ainda temos o problema das raízes grandes e rasas que danificam as calçadas e põem em risco a vida de pedestres. Recentemente, uma senhora tropeçou em uma dessas calçadas danificadas e se machucou. Pediu para que a situação fosse resolvida, mas para resolver é preciso cortar essa raiz e se cortar a raiz a árvore morre, por isso ela precisa ser suprimida, daí vem a questão da comoção da comunidade que se manifesta contra a retirada da planta e o espaço deixado. Dessa maneira, é preciso que as pessoas tenham consciência de que algumas árvores não são viáveis em meio urbano”, esclarece a bióloga.

Arborização necessária

A especialista reafirma a importância da arborização urbana. “Ela é necessária sim, porque traz benefícios tanto ambientais, econômicos e psicológicos para a cidade. Faz muito bem ter um ambiente arborizado, verde, onde haja fauna, porque onde tem árvore, automaticamente animais se aproximam como pássaros e pequenos mamíferos. Mas é preciso fazer tudo isso de uma maneira pensada, planejada, com visão para daqui a 15, 20 anos. Um paisagista tem que fazer um projeto pensando no futuro, pensando no tamanho e porte que as espécies vão atingir, na maneira que essas árvores terão de ser podadas. Tudo isso para impedir que ocorram prejuízos, principalmente prejuízos em relação a vida humana”.

“E com o objetivo de prevenir esses acidentes, provavelmente o que vai continuar acontecendo no Parque da Cidade é o monitoramento das plantas e a supressão das árvores que podem causar algum dano. Relembrando que os pinheiros não são espécies típicas do cerrado e que a supressão dessas árvores, por motivos de segurança, não vai causar desequilíbrio no meio ambiente e nem no ecossistema”, finaliza Amanda.