Mulher-Maravilha?

Foto: upklyak/freepik

A psicóloga Simone Andrade faz um alerta para a comparação entre a mulher contemporânea e a Mulher-Maravilha. Embora todas tenham características de superação, determinação e força, é preciso estipular limites, dividir tarefas, e buscar um autocuidado para que esse rótulo não traga prejuízos físicos, mentais e sociais

Quem não conhece a história da Mulher-Maravilha? Linda, inteligente, guerreira, uma mulher à frente do seu tempo. Ela enfrenta grandes batalhas e tem muitas habilidades.

A princípio, não é tão diferente da mulher contemporânea, que também é uma lutadora, às vezes chamada de guerreira, cheia de habilidades para lidar com as demandas da vida, com os filhos – e que além de cuidar da família e das atividades domésticas – trabalha fora e muitas ainda estudam para conseguir se manter no mercado de trabalho.

Não podemos deixar de reconhecer que a cada dia as mulheres têm conquistado novos espaços e se posicionado na sociedade, porém, ainda existe um longo caminho a ser percorrido na busca da equiparação entre homens e mulheres em vários aspectos.

Hoje a nossa reflexão é sobre até que ponto ser considerada a Mulher-Maravilha contemporânea está servindo de pretexto para sobrecarregar, ainda mais, a mulher real. A mulher moderna tem tentado dar conta de tudo, tem se cansado, se frustrado, se culpado e adoecido, enquanto luta para sair do domínio do patriarcado enraizado na nossa sociedade até hoje. Então, mesmo após ter conquistado direitos importantes para a sua valorização, a mulher de hoje luta pelo direito de não dar conta de tudo, pela compreensão de que precisa de ajuda.

Pesquisas mostram que as atividades domésticas, da maioria das mulheres brasileiras, aumentaram com a pandemia. Assim, as mulheres estão se cobrando ainda mais por uma produtividade inalcançável, desumana. Esta Mulher-Maravilha que todos esperam que sejamos não existe! O que existe é uma mulher sobrecarregada e adoecida, a Mulher-Maravilha que resolve tudo só existe nos sonhos de quem ainda não compreende a necessidade da colaboração nas tarefas domésticas e nas responsabilidades com os filhos, e olha que isso tem melhorado ao longo dos anos.

Mesmo assim, pesquisa do IBGE de 2019 mostra que as mulheres gastavam em média 21,4 horas semanais em afazeres domésticos, enquanto os homens gastavam em média 11 horas semanais. Essa participação masculina, embora já exista, tem sido sem iniciativa, onde as mulheres precisam pedir, além de explicar o que fazer, o que acaba se tornando um desgaste mental. Desta forma, como fica o futuro das mulheres no que diz respeito a sua saúde mental diante de uma sobrecarga que não tem previsão de diminuir?

A indicação para essa mulher é começar a se cuidar, buscar ajuda para aprender a se valorizar, se priorizar, fortalecer sua autoestima, para se ver como uma pessoa que tem não só deveres, mas também direitos: o direito de descansar, de não carregar o mundo nas costas, de não dar conta de tudo, de não se sentir culpada e de não achar que seu valor está em tudo que faz pelos outros em detrimento de si mesma.

E como isso se faz? Comece se conhecendo, entenda seus pontos fortes e pontos fracos, saiba seus limites, saiba onde quer chegar, o que te faz feliz, e principalmente quais são as batalhas que você escolhe lutar, há muitas que não valem o nosso tempo nem a nossa energia.

Outra sugestão é que você aprenda a gerenciar o seu tempo, não para fazer uma lista interminável de tarefas, que, no fundo, você sabe que não vai conseguir cumprir, mas para observar que você já faz coisas demais e é possível delegar algumas dessas tarefas. Reduzir as tarefas do dia é o primeiro passo, iniciar um processo de conscientização da sua família sobre a importância da colaboração nas atividades domésticas também é importante, e lembre-se: o trabalho, as obrigações nunca acabam, dia a dia sempre estarão lá e as pessoas tendem a valorizar quem se valoriza primeiro!

É hora de tirar um tempo para descansar, se cuidar, se divertir, fazer o que gosta, estar com quem ama. Com o passar do tempo a tendência é que a nossa vitalidade física diminua, talvez amanhã você queira recuperar esse tempo e se divertir mais, rir com a família, viver de fato, e pode ser tarde por várias questões. Podemos recuperar muitas coisas na vida, mas o tempo passado e a vitalidade não têm nada no mundo que nos traga de volta. Por isso busque ajuda de um profissional de saúde mental e valorize o momento atual, viva da melhor forma, seja quem você realmente quer ser e faça o seu melhor! Lembrando que o seu melhor é o equilíbrio entre o que precisa ser feito e sua saúde física e mental.

Simone Andrade – Psicóloga – CRP-01/24582