quarta-feira, julho 24, 2024
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Pandemia atinge trabalho de domésticas

Foto: dfn

Empregada conta que colegas de profissão precisaram se reinventar por conta da crise. Federação que representa o setor aponta que a categoria foi uma das mais afetadas no país. Codeplan diz que taxa de desemprego diminuiu no Distrito Federal, em relação a maio de 2020

Entre as várias categorias profissionais que foram fortemente impactadas pela pandemia no Brasil está a dos trabalhadores domésticos, composta, em sua maioria, por mulheres. Entre o início de 2020 e o segundo trimestre de 2021, o número de empregados no setor caiu de 6,4 milhões para 5 milhões, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), considerando os mercados formal e informal.

O medo da contaminação e a perda da renda dos empregadores, aliados a outros fatores trazidos pela pandemia, atingiram em cheio a empregabilidade desses profissionais. O DF Notícias fez um levantamento no setor e verificou a situação na capital e no país.

De acordo com a Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad), “O trabalho doméstico se revela de enorme importância não apenas para um conjunto particular de mulheres, que encontra nesta profissão uma de suas únicas alternativas de renda, mas também para a organização da sociedade brasileira. E, com a covid-19, mais de 2 milhões de trabalhadoras domésticas perderam seus empregos só em 2020, se tornando a segunda categoria mais afetada durante a pandemia”.

O fato é confirmado pela Procuradora Regional do Trabalho e Coordenadora Nacional do Ministério Público do Trabalho (MPT), Adriane Reis de Araújo. A jurista ressaltou em audiência na Câmara dos Deputados que “o trabalho doméstico foi um dos mais afetados pela pandemia, com queda de 27%. Essas trabalhadoras enfrentam o medo de contágio por transporte público sem os cuidados devidos, além da alta taxa de informalidade provocada pela ruptura das relações de trabalho e o aumento do desemprego”, afirmou.

A economista Mariel Lopes, que é Supervisora técnica do Escritório Regional do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) no Distrito Federal, também reforçou que o primeiro ano da pandemia impactou mais as trabalhadoras domésticas. Ela citou indicadores que mostram a queda de vagas: “eram quase 6,4 milhões de trabalhadores domésticos no final de 2019 e, um ano depois, mais de 500 mil vagas tinham sido perdidas, sendo que trabalhadoras negras foram as mais afetadas”.

Ana Lúcia Soares, 52, é mãe solteira de dois filhos, e cuida de mais dois sobrinhos, mora em São Sebastião e conta que sentiu na pele o desemprego no setor. Ao DF Notícias ela disse que a pandemia impactou fortemente a renda de sua casa quando ela foi demitida, logo no início da proliferação da doença. “Eu estava trabalhando como diarista em algumas casas, mas em março do ano passado fui dispensada de duas, uma delas eu tinha carteira assinada. Foi muito difícil, ficar desempregada é um problema. Eu fiquei recebendo seguro-desemprego, mas logo tive que correr atrás de emprego porque quem cuida da casa sou eu. Não foi um período fácil, conheço muitas domésticas que seguem sem trabalho”, conta.

Lucia aponta que algumas procuraram outros tipos de ocupações. “Muitas empregadas domésticas procuraram outros tipos de trabalho, como manicure, lavadoras de cabelos, atendente de padaria, e outras também passaram ao trabalho informal. Quem conseguiu algum tipo de valor passou a vender comida na rua, lanche, roupas, lingeries. É tudo muito difícil, mas acreditamos na recuperação dos postos de trabalho”.

Perfil

Dos 5 milhões de trabalhadores domésticos no país, 92% são mulheres, das quais 65% são negras. A taxa de formalidade no setor é de apenas 25%. As informais ganham 40% menos do que as formais e as trabalhadoras negras recebem em média 15% menos. Os dados são da Pnad divulgada no último trimestre de 2020.

Segundo levantamento da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan), 63,3% das secretárias do lar têm entre 30 e 49 anos de idade, e 28,2% têm acima de 50 anos. O emprego doméstico tem sido, ao longo de muitos anos, uma das principais inserções ocupacionais das mulheres, contribuindo para a sua sobrevivência e a de suas famílias. Quanto a posição na família, condizente com o perfil etário apurado para estas trabalhadoras, 45% eram as principais responsáveis pela família e outras 44,7% eram cônjuges.

Recuperação

Informações da Pesquisa de Emprego e Desemprego no Distrito Federal – PED-DF, realizada pela Codeplan e Dieese, mostram que “a taxa de desemprego total diminuiu de 21,3% para 19,4%, entre maio de 2020 e de 2021 no Distrito Federal. No mesmo período, a taxa de participação – proporção de pessoas com 14 anos e mais incorporadas ao mercado de trabalho como ocupadas ou desempregadas – cresceu, ao passar de 62,9% para 65,2%”. Não foram enviados dados específicos dos trabalhadores domésticos.

Além disso, a pesquisa aponta que nos últimos doze meses, o contingente de desempregados reduziu, como resultado do aumento no nível de ocupação (97 mil postos de trabalho) em número superior ao acréscimo da População Economicamente Ativa – PEA (83 mil pessoas entraram no mercado de trabalho).

Jean Lima, presidente da Codeplan, avalia como positivos os dados. “Mesmo atravessando essa crise sanitária sem precedentes, que afetou diretamente a economia mundial e o mercado de trabalho tivemos um aumento de 7,9% no número de ocupados e uma queda de 3,9% no número de desempregados em relação ao mesmo período do ano passado. Além disso também tivemos crescimento na construção civil, comércio de reparação, entre outros”, explica.